Uma das páginas mais conhecidas do Evangelho é, sem dúvida, a das bem-aventuranças que inaugura o célebre sermão do monte.
Todas as oito bem-aventuranças se podem considerar contidas na primeira, uma espécie de síntese de todas elas. E todas podem ser vistas como um retrato de Jesus e, por isso mesmo, o estatuto do discípulo ou seja, do cristão.
Fazer das bem-aventuranças mais uns mandamentos é desvirtuá-las, esvaziá-las do potencial explosivo nelas concentrado.
Felizes os pobres em espírito, os que o são no seu íntimo… e muitas outras traduções do original grego. Melhor: uma atitude, mas talvez ainda seja insuficiente.
Se as bem-aventuranças são o estatuto do discípulo de Jesus, então não devem ser interpretadas apenas como mandamentos nem como conselhos mas como constituindo parte essencial da opção de seguir o Mestre. Ser pobre é, no discurso de Jesus, um traço essencial da figura do Mestre e portanto também do discípulo.
Mas ser pobre como?
Ser desprendido? Sim, mas mais que isso, creio. É assumir livremente as consequências da condição de pobre. O pobre não pode aspirar a ser importante; nunca terá assento nos primeiros lugares; está no mundo para servir, não para ser servido; é o primeiro a ter que emigrar, o primeiro a sofrer com as calamidades naturais ou a violência dos poderosos…
Nada disto é um bem que se procure nem o pobre escolheu a sua condição.
Não é nenhuma felicidade estar privado do uso dos bens que o mundo oferece
(a alguns…). A felicidade verdadeira consiste em estar de tal modo livre em relação a tudo, que se procure acima de tudo o reino de Deus e a sua justiça. Foi assim que o Filho de Deus renunciou à grandeza da condição divina e optou livremente pela condição humana.
domingo, 14 de junho de 2009
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Nem bem nem mal
É sabido que uma das maneiras de os povos exprimirem a sabedoria ancestral é a das sentenças proverbiais. Fruto da experiência reflectida dos sábios, nem sempre se entendem à primeira leitura, como esta, por exemplo: “De ti nunca digas nem bem nem mal”. Também é pela experiência que a verdade profunda incluída em tais sentenças nos será, pouco a pouco, desvendada.
Falar bem de mim, das minhas qualidades, das minhas virtudes é, na realidade, obsceno.
Falar mal, tratando-se do estendal das minhas misérias, é mórbido e só pode interessar a quem se delicia a lamber as próprias feridas. Se for apenas a confissão de alguns defeitos, é pouco interessante e pode ser razoavelmente hipócrita pois é normal que provoque, por delicadeza, o ricochete de sinal contrário. Portanto nem bem nem mal, é o mais sensato.
Falar bem de mim, das minhas qualidades, das minhas virtudes é, na realidade, obsceno.
Falar mal, tratando-se do estendal das minhas misérias, é mórbido e só pode interessar a quem se delicia a lamber as próprias feridas. Se for apenas a confissão de alguns defeitos, é pouco interessante e pode ser razoavelmente hipócrita pois é normal que provoque, por delicadeza, o ricochete de sinal contrário. Portanto nem bem nem mal, é o mais sensato.
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Bakhita (1869-1947)
Esta é na verdade uma santa fora do comum. Nascida no Sudão (região do Darfur), analfabeta, foi raptada e vendida cinco vezes como escrava; usada e descartada, até ser comprada pelo cônsul de Itália, para os serviços domésticos. Admirava-se que os novos patrões não usassem o chicote para lhe significar alguma ordem.
Com a repatriação do Cônsul, pediu para acompanhar a família na sua transferência para Itália.
Foi aí que conheceu um Senhor diferente por quem se apaixonou, Jesus Cristo. Depois de convenientemente instruída, recebeu o baptismo e consagrou-se ao seu Senhor no Instituto das irmãs Canossianas.
Foi canonizada por João Paulo II no ano de 2000.
Com a repatriação do Cônsul, pediu para acompanhar a família na sua transferência para Itália.
Foi aí que conheceu um Senhor diferente por quem se apaixonou, Jesus Cristo. Depois de convenientemente instruída, recebeu o baptismo e consagrou-se ao seu Senhor no Instituto das irmãs Canossianas.
Foi canonizada por João Paulo II no ano de 2000.
terça-feira, 5 de maio de 2009
A comunidade
Não foi nem é hoje fácil realizar no concreto da vida o ideal da comunidade cristã apresentado por Lucas.
Um só coração e uma só alma, orientados pela doutrina dos apóstolos, na alegria de compartilhar tudo quanto cada um é e tem, e por consequência sem necessitados, que maravilha!
No entanto, não foi preciso muito tempo para que surgissem invejas, divisões, ricos e pobres, manifestações de poder…
Era necessário que João viesse recordar: Pastor, hoje diríamos talvez Chefe, há só um, o Senhor Jesus. E quem o quiser seguir, seja qual for a sua responsabilidade dentro da comunidade, terá que imitar o seu exemplo. Em resumo – dar a vida, seja de maneira sangrenta como Ele, seja, mais provavelmente, na rotina do dia-a-dia. Apagar-se em face das necessidades dos outros de modo que eles cresçam, ainda que o EU tenha que diminuir.
Comunidade perfeita nunca existiu, permanece um ideal. Há grupos e indivíduos que caminham nessa direcção confiados na força que Jesus lhes comunica.
Por isso foi certeiro quem disse: “Um santo é um pecador que não desiste”.
Um só coração e uma só alma, orientados pela doutrina dos apóstolos, na alegria de compartilhar tudo quanto cada um é e tem, e por consequência sem necessitados, que maravilha!
No entanto, não foi preciso muito tempo para que surgissem invejas, divisões, ricos e pobres, manifestações de poder…
Era necessário que João viesse recordar: Pastor, hoje diríamos talvez Chefe, há só um, o Senhor Jesus. E quem o quiser seguir, seja qual for a sua responsabilidade dentro da comunidade, terá que imitar o seu exemplo. Em resumo – dar a vida, seja de maneira sangrenta como Ele, seja, mais provavelmente, na rotina do dia-a-dia. Apagar-se em face das necessidades dos outros de modo que eles cresçam, ainda que o EU tenha que diminuir.
Comunidade perfeita nunca existiu, permanece um ideal. Há grupos e indivíduos que caminham nessa direcção confiados na força que Jesus lhes comunica.
Por isso foi certeiro quem disse: “Um santo é um pecador que não desiste”.
domingo, 3 de maio de 2009
Cinismo ou solidariedade?
A TV americana mostrava, um dia destes, uma enorme feira onde se vendia toda a espécie de armas, desde revólveres até armas automáticas para todos os gostos. Tudo se podia comprar sem necessidade de qualquer autorização. Isto já é tão extraordinário que penso só acontecer nos USA. Mais extraordinário porém é a explicação dada pelo feirante para o anormal aumento de compradores, quer de armas quer de munições – um verdadeiro arsenal. Em maré de crise seria de esperar maior contenção, sobretudo em relação a despesas não essenciais.
“Precisamente por causa da crise, explicava, com todo o cinismo, o vendedor. Com a crise é natural que haja mais assaltos por parte daqueles a quem falta tem o mínimo para sobreviver. E assim… as pessoas têm que se defender”… a tiro!
Reflectindo sobre tamanha inversão de valores, veio-me espontaneamente à memória o que tem acontecido com o “Banco Alimentar contra a fome”. Quanto mais aguda se torna a crise, mais vai aumentando o montante das ofertas.
Dois paradigmas que dão que pensar. No primeiro caso o EU ameaçado reage com violência até à morte eventual do necessitado; no segundo é o necessitado que é preciso ajudar mesmo que seja a custa de alguma renúncia aos próprios direitos.
“Precisamente por causa da crise, explicava, com todo o cinismo, o vendedor. Com a crise é natural que haja mais assaltos por parte daqueles a quem falta tem o mínimo para sobreviver. E assim… as pessoas têm que se defender”… a tiro!
Reflectindo sobre tamanha inversão de valores, veio-me espontaneamente à memória o que tem acontecido com o “Banco Alimentar contra a fome”. Quanto mais aguda se torna a crise, mais vai aumentando o montante das ofertas.
Dois paradigmas que dão que pensar. No primeiro caso o EU ameaçado reage com violência até à morte eventual do necessitado; no segundo é o necessitado que é preciso ajudar mesmo que seja a custa de alguma renúncia aos próprios direitos.
domingo, 19 de abril de 2009
Alegria da fé
Teremos de concordar que as Missas são tristes; as chamadas “actividades” eclesiais, os grupos ou começam tristes ou caem, ao fim de pouco tempo, numa monotonia melancólica. Até as “festas” pascais, que deveriam ser uma explosão de alegria, não passam de rituais difíceis de entender, demasiado longos e fastidiosos. Há excepções, sem dúvida, que servem para confirmar a regra. E frequentemente são fruto de habilidades pastorais que não ultrapassam a superfície do mistério. Qual a razão?
Haverá muitas, mas talvez a razão mais profunda esteja em não se ter feito a experiência da presença viva de Jesus ressuscitado. Não se trata de “cumprir” leis, menos ainda de acrescentar mais alguns complementos litúrgico-pastorais. Não foi preciso nenhuma lei para arrancar o medo aos discípulos e lançá-los pelo mundo. Eles é que não cabiam em si de contentes nem em casa nem no torrão pátrio: não podiam calar o que tinham visto e ouvido. Isto não se consegue com habilidades, mais ou menos cantorias, mais ou menos violas. Trata-se de ver e ouvir, de fazer a experiência de se dispor cada um a deixar-se encontrar por Jesus ,que está tão vivo agora como quando se manifestou à Madalena ou a João. O amor não se pode conter - abre portas e janelas e transborda para os outros.
Haverá muitas, mas talvez a razão mais profunda esteja em não se ter feito a experiência da presença viva de Jesus ressuscitado. Não se trata de “cumprir” leis, menos ainda de acrescentar mais alguns complementos litúrgico-pastorais. Não foi preciso nenhuma lei para arrancar o medo aos discípulos e lançá-los pelo mundo. Eles é que não cabiam em si de contentes nem em casa nem no torrão pátrio: não podiam calar o que tinham visto e ouvido. Isto não se consegue com habilidades, mais ou menos cantorias, mais ou menos violas. Trata-se de ver e ouvir, de fazer a experiência de se dispor cada um a deixar-se encontrar por Jesus ,que está tão vivo agora como quando se manifestou à Madalena ou a João. O amor não se pode conter - abre portas e janelas e transborda para os outros.
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Sentença
Num destes mails piedosos e geralmente tontos que nos enviam, encontrei uma sentença cheia de sabedoria: "Deus deu-nos as coisas para usar e as pessoas para amar; infelizmente pode acontecer amarmos as coisas e usarmos as pessoas".
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